Ecologia Industrial - Artigo sobre o Ecoprojeto PDF Imprimir E-mail
Introdução

O presente artigo é o resultado de uma pesquisa bibliográfica sobre a Ecologia Industrial – um conceito que vem tendo uma difusão maior somente a partir dos anos ‘90 e trata da tentativa de reorganizar o sistema industrial tomando como modelo o funcionamento do ecossistema natural – e sobre o Ecoprojeto – que é o projeto de produto visando minimizar seu impacto sobre o meio ambiente, ao mesmo tempo em que prossegue buscando maximizar os benefícios para a empresa e seus clientes. O objetivo deste paper é difundir entre os administradores estes conceitos, e a forma como eles podem ser operacionalizados.

No estágio atual de conscientização ambiental predominante no mundo dos negócios em geral – com exceção de algumas empresas líderes mundiais, como a 3M, aqui apresentada como um exemplo de que o ecoprojeto pode ser compensador –, ainda não é dada a merecida importância a estes conceitos estratégicos. Sendo assim, busca-se neste trabalho ressaltar seu papel central nos futuros desenvolvimentos dos sistemas empresariais.



Visão Histórica da Ecologia Industrial

A difusão do termo ecologia industrial (Industrial Ecology), mesmo nos países desenvolvidos, vem ocorrendo somente desde os anos noventa, embora este conceito viesse se manifestando esporadicamente por algumas décadas. Seu desenvolvimento começou em meados dos anos ‘70, embutido majoritariamente em programas da Organização das Nações Unidas, tais como o Programa do Meio Ambiente, a Organização para o Desenvolvimento Industrial e a Comissão Econômica para a Europa. (Erkman, 1997)

De acordo com Erkman (1997), duas tentativas anteriores a 1990 de desenvolver o conceito de ecologia industrial são dignas de menção. A primeira aconteceu nos anos ‘70 no Japão, onde o Ministério do Comércio Internacional e da Indústria (Ministry of International Trade and Industry – MITI) formou o Conselho da Estrutura Industrial para pensar sobre como orientar a economia japonesa para que consumisse menos materiais e fosse mais sustentável. Ao fazer isso, o Japão transformou-se no único país onde a ecologia industrial foi posta em prática em larga escala. A segunda é um trabalho coletivo publicado em 1983 chamado O Ecossistema da Bélgica (The Belgium Ecosystem), que estudou seis fluxos de materiais – ferro, vidro, plástico, chumbo, madeira e papel – e concluiu que a abertura econômica do sistema belga estava conduzindo a uma abertura ecológica dos ciclos destes materiais, gerando poluição.
Então, no final de 1989, um artigo de Robert Frosch e Nicholas que Gallopoulos publicado na Scientific American teve um papel catalítico, especialmente entre as pessoas na área da produção industrial, levando diversos outros autores a escrever artigos que espalharam o conceito em círculos acadêmicos e de negócios. (Erkman, 1997)


Potencial da Ecologia Industrial

Em termos gerais, a idéia da ecologia industrial é definir como seria possível reorganizar o sistema industrial de tal maneira que o aproximasse do funcionamento do ecossistema natural. Isto é considerado necessário porque o sistema industrial, como organizado presentemente, não é sustentável no longo prazo, já que os fluxos estão todos em um único sentido: dos recursos naturais aos resíduos finais (caracterizando a ecologia do tipo I, conforme pode ser visto na Figura 1). No ecossistema biológico, por outro lado, os fluxos são “quase completamente cíclicos quando escalas de tempo suficientemente longas são consideradas” e, sendo assim, o resíduo de um elemento do sistema é recurso para outro, caracterizando a ecologia do tipo III. (Graedel, 1994, p. 24)

Figura 1: Tipos de Ecologia Industrial
 

 


Uma das características-chave da ecologia industrial refere-se a sua abordagem sistêmica, que procura estudar todas as interações entre os sistemas industriais e seu ambiente. Dentro desta visão integrada, tenta-se otimizar o ciclo total dos materiais, da extração de matérias-primas ao destino final do resíduo: reutilização, reciclagem ou descarte. (Graedel, 1994)

A ecologia industrial representa um caminho que busca operacionalizar o conceito do desenvolvimento sustentável em uma maneira economicamente viável. Isto porque a ecologia industrial fornece às empresas formas mais eficientes e, conseqüentemente, mais lucrativas de explorar seus recursos e produtos, incluindo seus resíduos. (Erkman, 1997)

É muito interessante notar a visão da ecologia industrial a respeito da poluição: ela é vista como sinônimo de ineficiência, já que é o resultado de recursos e esforços desperdiçados por causa de problemas no projeto do produto e do processo, e na operação do processo. Assim, a produtividade dos recursos deve ser aumentada através das inovações que evitarão a poluição, tais como a substituição de materiais e processos de loop fechado. (Porter & van der Linde, 1995)

Porter & van der Linde (1995) mencionam diversos exemplos de inovações que não somente reduzem ou eliminam custos ambientais, mas também aumentam a competitividade. Nestes casos, companhias tentando cumprir o regulamento ambiental ou reduzir custos de eliminação de resíduos conseguiram melhorar a consistência e a qualidade do produto e do processo, diminuir os custos com materiais e de produção, reduzir o tempo ocioso e aumentar o rendimento do processo.

A despeito destes exemplos, Porter & van der Linde (1995, p. 127) indicam que “um novo quadro de referência para pensar sobre a melhoria ambiental é urgentemente necessário”. Empresas e reguladores ambientais agem como antagonistas, com estes últimos definindo padrões de regulação hostis à inovação e as primeiras lutando contra os padrões definidos porque é aparentemente demasiado custoso atender aos mesmos.

 

Mudança de Paradigma

Considerando um paradigma como um conjunto de opiniões, conceitos e práticas que guiam a ação humana, a ecologia industrial pode ser vista como um paradigma emergente. Uma das mudanças essenciais para a constituição deste novo paradigma é a percepção do homem como uma parte do ecossistema global, não mais como um elemento alheio à natureza. Outra refere-se à substituição do senso predominante de abundância por um senso de escassez ou de limitação de recursos. (Ehrenfeld, 1997)

Este último apresenta-se como um desafio enorme, uma vez que a sociedade capitalista está evoluindo exatamente no sentido oposto, de valorizar e de adotar o consumismo selvagem cada vez mais. As empresas em geral desenvolvem estratégias de marketing focalizadas em produtos descartáveis ou de ciclo de vida curto. De sua parte, os consumidores não são conscientes ainda do preço que pagam pelo custo da poluição e, exceto certos consumidores de alguns países desenvolvidos, a maioria deles não percebe a extensão dos danos que o consumismo pode provocar.

Na esfera de empresas isoladas, sendo a habilidade de inovar rapidamente imperativa para a competitividade, as estratégias ambientais estão se tornando fontes de vantagem competitiva e os pioneiros – as primeiras empresas a desenvolverem soluções para o “problema” ambiental – conseguirão os maiores benefícios. (Porter & van der Linde, 1995)

Mas a mudança mais importante no nível da empresa é exatamente a cooperação absolutamente necessária entre companhias para produzir o comportamento sustentável e criar os fluxos cíclicos mencionados. Então surge o problema da coordenação. Boons & Baas (1997) indicam que as organizações responsáveis pelos processos que devem ser integrados precisam desenvolver relações não somente de competição, mas também de cooperação, apesar das relações de dependência eventualmente assimétricas entre algumas delas. Neste contexto, as agências governamentais e as associações de negócios desempenham um papel catalisador na implementação de iniciativas de ecologia industrial.

No Brasil, por exemplo, uma iniciativa que ilustra o papel agregador das associações de negócios ganhou destaque na mídia: foi a criação da Bolsa de Resíduos, pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP). A proposta desta bolsa é ser uma ponte entre os empresários de todo o país que precisam dar um destino aos seus resíduos e também entre estes e as empresas de reciclagem. Por meio do site da FIESP na internet, os interessados se inscrevem e assim podem anunciar seus resíduos para venda, ou até doação, e adquirir os resíduos de outros para utilização como insumos ou matérias-primas para os seus processos. (Jornal Hoje, 2002)

Entretanto, apesar de iniciativas como esta serem de extrema importância, ainda não são suficientes para resolver o problema da coordenação. E um dos fatores que mais agravam este problema é a globalização da economia. A globalização representa um transtorno na implementação da ecologia industrial, desde quando expande os limites de ecossistemas industriais, quer em termos geográficos ou das cadeias de produto/material. Portanto, na economia global, torna-se muito mais complicado realizar uma abordagem integrada dentro de uma região onde cadeias completas de produto/material estejam presentes, incluindo o consumo. (Boons & Baas, 1997)

Uma outra dificuldade à execução do conceito de ecologia industrial é que, desde que toda atividade econômica tem algum impacto na natureza, não é fácil determinar quanto pior um impacto é do que o outro e às vezes é necessária uma perspectiva de muito longo prazo para avaliar a escolha mais responsável ambientalmente. (Graedel, 1994)
 

Ferramentas de Ecologia Industrial

Van Berkel et al. (1997) sistematizam a enorme variedade de métodos usados para implementar o conceito de ecologia industrial nas empresas, dividindo-os em quatro tipos funcionais de ferramentas, as quais podem ser vistas resumidamente na Tabela 1:



Ferramentas de inventário: permitem a identificação, a quantificação e a alocação de intervenções ambientais. Podem ser orientadas a produtos ou processos.

Inventário do ciclo de vida: determina e quantifica os impactos ambientais de um produto durante toda a sua vida (“do berço ao túmulo”);

Inventário abreviado do ciclo de vida: determina e quantifica os impactos ambientais mais significativos de um produto durante seu ciclo de vida;

Matriz MET (materiais, energia, emissões tóxicas): fornece informação qualitativa estruturada sobre os aspectos ambientais associados à produção, uso e destino final de um produto;

Eco balanço: identifica os impactos ambientais dos processos de produção, inclusive os das atividades a montante e a jusante da empresa considerada, permitindo a análise comparativa em relação a sua cadeia de produção;

Balanço material e de energia: permite a avaliação quantitativa das entradas e saídas de materiais e energia no nível dos processos produtivos individuais;

Fluxograma de processo: revela oportunidades de melhoria de processo, através da identificação das possíveis fontes de geração de resíduos ou consumo excessivo de materiais e energia.

 

Ferramentas de melhoria: facilitam a geração de melhorias nos produtos e nos processos.

Princípios ecológicos: ferramenta conceitual que identifica opções de projeto ambientalmente orientadas para um produto;

Abordagens de melhoria do produto: identifica e implementa opções de melhoria ambiental para produtos existentes;

Matriz de melhoria do produto: analisa o encargo ambiental remanescente após a melhoria de um produto, processo ou instalação;

Técnicas de prevenção da poluição: gera opções de melhoria em produtos, matérias-primas, resíduos, tecnologia e processo visando eliminar ou minimizar a poluição;

Estratégia de prevenção da poluição: busca reduzir a quantidade de quaisquer resíduos de processo e substituir qualquer material tóxico ainda no nível estratégico;

Inventário de opções: versão detalhada e específica para uma indústria das técnicas de prevenção da poluição;

Blueprint: especifica o processo ambientalmente mais correto que pode ser considerado como uma meta para as outras plantas de produção.

 

Ferramentas de priorização: ajudam a avaliar e definir prioridade entre intervenções ambientais.

Benchmarks: identificam e priorizam oportunidades de melhoria em uma empresa, por meio da comparação com valores de referência;

Cálculo do custo total: avalia o custo total da geração de resíduos e emissões para estimar os benefícios financeiros potenciais de medidas preventivas em partes diferentes da empresa;

Cálculo do custo durante o ciclo de vida: identifica e prioriza o estágio do ciclo de vida do produto com os custos ambientais mais altos;

Avaliação do ciclo de vida (LCA): classifica e avalia os problemas ambientais associados ao ciclo de vida do produto, visando priorizar os efeitos ambientais mais prejudiciais;
Análise do eco portfolio: matriz para ajudar na seleção de produtos e/ou negócios para serem objeto de um projeto de melhoria ambiental;

Matrizes de sumário de produto: facilitam a seleção do melhor entre vários projetos (de processos, materiais ou produtos) pela comparação dos seus atributos ambientais, de manufatura, de toxicidade e político-sociais;

Eco oportunidade: prioriza as intervenções ambientais causadas por uma empresa através de critérios econômicos, ambientais, políticos, sociais e de potencial de melhoria;

Avaliação de opções: avalia e seleciona entre alternativas de reprojeto de produtos ou de melhorias de processo as mais factíveis e interessantes para implementação.

 

Ferramentas gerenciais: especificam procedimentos para o desenvolvimento de projetos de ecologia industrial.

Guia do projeto para o meio ambiente (DfE): permite à empresa introduzir no processo usual de desenvolvimento de produtos um processo sistemático de melhorias ambientais;

Guia de produção mais limpa: visa implementar melhorias ambientais e iniciar atividades de ecologia industrial em uma empresa, através do desenvolvimento de soluções que eliminem as fontes de geração de resíduos e suas causas;

Indicadores de produção mais limpa: estimam, quantitativa e qualitativamente, a magnitude das oportunidades de melhoria para minimizar resíduos e emissões e conservar materiais e energia;

Auditoria de processo: procedimento sistemático visando o desenvolvimento de um conjunto amplo de opções de melhorias ambientais.

Tabela 1: Ferramentas de Ecologia Industrial


Após a explicação de cada uma das ferramentas anteriores, os autores concluem afirmando que, em geral, a normalização das mesmas ainda é limitada e sua aplicação também sofre restrições, como a dependência de conhecimentos de especialistas e a exigência de alto nível de esforço do staff da empresa. Sugerem, então, uma avaliação comparativa das potencialidades e fragilidades das ferramentas, a qual pode contribuir para a resolução de questões relacionadas a vulnerabilidade, acurácia e abrangência, entre outras. (Van Berkel et al., 1997)

Por fim, Van Berkel et al. (1997)  ressaltam a primazia das ferramentas gerenciais na prática, já que com freqüência são escolhidas previamente e passam a fornecer a estrutura para a seleção, determinação da seqüência de uso e aplicação conjunta dos outros tipos de ferramenta. Aparentemente, com base nos exemplos citados pelos autores, e na lógica empresarial, é possível sugerir que a escolha das ferramentas gerenciais teria como base a orientação maior da empresa – e do seu ramo de atividade – para processos ou produtos. Se uma empresa atua na indústria de processo, como por exemplo química e petroquímica, fazendo uso de processos contínuos ou semi-contínuos, é mais lógico que a ferramenta gerencial estruturante escolhida esteja relacionada à produção mais limpa. Por outro lado, se uma empresa atua na indústria de produtos de forma, como por exemplo uma manufatureira, então é coerente que a mesma opte pelo projeto para o meio ambiente ou ecoprojeto como ferramenta gerencial.

 

Ecoprojeto

Ecoprojeto (do inglês ecodesign) é sinônimo do que vem sendo designado até aqui de projeto para o meio ambiente (do inglês Design for Environment - DfE), termo mais utilizado pelos autores de ecologia industrial. Já o termo ecoprojeto vem sendo utilizado por autores da área de projeto de produtos e será preferido no presente artigo, a partir deste ponto, por sua maior praticidade.

Mas o que vem a ser exatamente o ecoprojeto? De maneira objetiva, pode ser definido como o projeto de produtos – bens, principalmente, mas também serviços, incluindo seus processos de produção – que incorpora considerações ambientais, visando minimizar o impacto sobre o meio ambiente, ao mesmo tempo em que prossegue buscando maximizar os benefícios para a empresa e seus clientes.

Não se pode esquecer que qualquer tentativa de melhorar o desempenho ambiental de um produto só será implementada se a mudança reduzir o custo total – o que depende, em grande parte, da orientação de impostos para a questão ambiental – ou agregar um valor pelo qual os consumidores estejam dispostos a pagar. De qualquer forma, a mudança na política fiscal também pode ajudar a mudar os padrões de consumo, uma vez que os produtos ecoprojetados terão provavelmente preços mais baixos do que os convencionais. (Spangenberg, 2001)

Neste ponto, cumpre ressaltar o papel central do projeto de produtos em relação à ecologia industrial e ao desenvolvimento sustentável, já que o mesmo guia o fluxo de materiais entrando e saindo do meio ambiente, revela a importância econômica e social destes materiais, e influencia a forma como os produtos serão produzidos e consumidos. (Ehrenfeld, 1997; Tischner & Charter, 2001)

De fato, alguns autores sustentam que o ecoprojeto é o coração da ecologia industrial. A fase de projeto é um momento crítico, no qual são tomadas decisões relativas, por exemplo, ao impacto do produto sobre a segurança do trabalhador e do consumidor, aos riscos para a saúde humana e o meio ambiente, e às características dos resíduos gerados. Além disso, por serem a maioria dos custos ambientais de desenvolvimento, manufatura e uso de um produto determinados no seu projeto inicial, é nesta etapa que os esforços para minimizar os impactos ambientais de um produto ou processo serão mais efetivos e eficientes. Sendo a flexibilidade existente nesta fase extraordinária – quer em relação à escolha das matérias-primas, da tecnologia de produção ou da química do processo, entre outros fatores – percebe-se aí uma oportunidade valiosa de aliar aos objetivos econômicos da empresa, os objetivos ambientais da sociedade. (Anastas & Breen, 1997)

Finalmente, é preciso registrar que existe um conceito ainda mais amplo do que o de ecoprojeto: o de projeto sustentável de produto (sustainable product design – SPD), o qual, além de levar em conta aspectos econômicos e ambientais, integra a estes considerações sociais e éticas relativas ao ciclo de vida do produto. Portanto, este é um conceito que envolve questões tão complexas quanto a redução das desigualdades entre países pobres e ricos, o respeito aos direitos humanos e a erradicação do trabalho infantil. (Tischner & Charter, 2001)

Contudo, enquanto o ecoprojeto já está começando a ser incorporado ao mundo dos negócios – principalmente na forma de eco-reprojeto de produtos existentes – abordagens do tipo ecoinovação (desenvolvimento de novos produtos e serviços ambientalmente orientados) e inovação sustentável em sentido mais amplo (novas soluções que gerem ao mesmo tempo maior valor para os consumidores e significantemente menores impactos na sustentabilidade) ainda são incipientes. Isto se deve, em parte, ao fato de que é possível implementar o ecoprojeto sem tratá-lo como um elemento tão estratégico quanto seria necessário na implantação do SPD. Além disso, o caráter radical da inovação sustentável exige um nível de criatividade que, embora essencial para a ruptura em direção ao novo paradigma, é muito difícil de ser alcançado. (Tischner & Charter, 2001)

Portanto, os próximos itens deste paper detalham melhor o ecoprojeto e o eco-reprojeto de produtos, por serem abordagens mais facilmente encontradas no âmbito empresarial.

 

Princípios e Estratégias do Ecoprojeto

Segundo Prates (1998), o ecoprojeto baseia-se em cinco princípios-chaves para a redução do impacto ambiental gerado pela aquisição de matéria-prima, manufatura, uso e descarte de um produto. São eles:

Recursos Materiais: minimização do emprego de recursos materiais não renováveis;

Energia: minimização da utilização de energia não renovável, maximizando portanto o uso de formas renováveis de energia, como a solar;

Materiais Tóxicos: minimização do uso e do risco associado a materiais tóxicos;

Interesses Globais: minimização do uso de materiais ou processos contribuintes para problemas globais, como o efeito estufa ou a destruição da camada de ozônio;

Interesses Locais: minimização do uso de materiais ou processos que comprometam o meio ambiente local;

Como estes princípios-chaves são por demais genéricos para fornecer indicações das ações necessárias para se reduzir o impacto ambiental dos produtos, será exposta a seguir uma síntese da vasta relação de estratégias que visam projetar um produto para melhor desempenho ambiental, apresentadas por Ramos (2001) e pelo Centro para Projeto do Royal Melbourne Institute of Technology (Gertsakis et al., 1997). Estas estratégias podem ser divididas em duas categorias básicas: as estratégias de redução do consumo de recursos e da geração de resíduos – reduzindo o consumo de matérias-primas ou de energia ao longo do ciclo de vida do produto, ou ainda, reduzindo os resíduos e as emissões – e as estratégias de extensão da vida útil do produto – aumentando a sua durabilidade ou facilitando a sua reutilização, remanufatura ou reciclagem. (Ramos, 2001)

Entre as estratégias de redução, encontram-se:


Projetar para conservação de recursos

Inclui a simplificação da forma do produto, que pode ser obtida pela redução do número de componentes necessários e pela redução ou eliminação de características simplesmente decorativas; o agrupamento de funções, concebendo-se produtos versáteis e multifuncionais que reduzem o uso de materiais e de espaço físico; a diminuição do peso, volume e tamanho, que reduz, além do custo de manufatura, o custo de transporte e a quantidade de material no fim da vida do produto; o uso de materiais reciclados e recicláveis no produto, como aço, alumínio, papel, plásticos, borracha e vidro, que podem conservar recursos e energia, mas precisam ser não apenas tecnicamente recicláveis, e sim reciclados localmente; o uso de recursos renováveis, que incluem materiais produzidos de modo sustentável a partir de fontes animais ou vegetais; a utilização de sub-produtos de outros processos, que ajuda a fechar ciclos de materiais; e o uso eficiente da água, que deve ser recuperada e reutilizada na produção e fazer parte da fase de consumo do produto da maneira mais eficiente possível.


Projetar para eficiência energética

As estratégias para o uso eficiente da energia compreendem reduzir o seu consumo dentro dos processos produtivos, o que já vem sendo feito pelos fabricantes há algum tempo, já que os custos energéticos afetam diretamente a competitividade da empresa no mercado; planejar para futuros desenvolvimentos que aumentem a eficiência energética, mesmo que no presente o produto sendo desenvolvido ainda não permita esta melhoria; reduzir o seu consumo na fase de uso do produto, sendo a legislação e a postura do consumidor os maiores estímulos para isto; usar fontes de energia renováveis e não poluentes, como o sol, a água e o vento, permitindo além da obtenção de ganhos ambientais, ganhos econômicos a longo prazo; reduzir a energia e a poluição no transporte, dando preferência a recursos locais, escolhendo sistemas de transporte eficientes, reduzindo o tamanho e o peso do produto, tornando-o empilhável, ou ainda, desmontável para o transporte e estocagem, e garantindo que a embalagem de transporte seja reutilizável e/ou reciclável.


Projetar para redução de impactos dos materiais


Esta estratégia envolve especificar materiais que não apresentem emissões tóxicas ou perigosas ao longo do seu ciclo de vida, evitando problemas para os seres humanos e o ambiente como envenenamento, câncer ou mutações genéticas, entre outros; evitar substâncias que agridam a camada de ozônio, como os CFCs (clorofluorcarbonos), substituindo-os por substâncias não prejudiciais à camada, como os hidrocarbonetos; evitar ou minimizar a produção de gases do efeito estufa, que incluem o dióxido de carbono e o monóxido de carbono, entre outros compostos orgânicos.

Projetar para prevenção da poluição

Esta estratégia relaciona-se à “produção mais limpa”, que abrange uma variedade de abordagens para aumentar a eficiência da produção e reduzir o risco aos seres humanos e ao ambiente. Basicamente, projetar para evitar a poluição é uma tentativa de reduzir impactos ambientais durante o estágio de produção do ciclo de vida do produto, por meio da melhoria das práticas de operação e do controle de processos; da eliminação dos desperdícios do processo através de modificações na produção e substituição de materiais; da redução do consumo de energia; da minimização da variedade dos materiais e da seleção de materiais e processos de baixo-impacto; da concentração e separação de materiais (incluindo a água) para reusar no processo ou como um subproduto, ao invés de misturá-los e diluí-los para eliminação como resíduo; de mudanças nas técnicas de produção incluindo a simplificação da montagem, automatização de processos e introdução de nova tecnologia onde apropriado; e da monitoração ambiental contínua e gerência ambiental sistematizada.

 

Já entre as estratégias de extensão, pode-se listar:

 

Projetar para durabilidade

A vida útil do produto pode ser prolongada, se no projeto forem identificados e eliminados pontos fracos potenciais, for considerado o seu eventual uso incorreto, for prevista a facilidade na manutenção e na substituição de peças e componentes e forem permitidos melhoramentos futuros (up-grades), por exemplo através de sistemas modulares que permitam a substituição e atualização de componentes internos tecnologicamente defasados. Também o design durável é uma estratégia para bens de consumo que implica em evitar formas e acabamentos que saem da moda rapidamente. Para atender às necessidades de atualização estética e de diferenciação das pessoas, o produto pode ter partes externas que sejam substituíveis com facilidade, o que também facilita a manutenção em caso de danos nestas partes.

 

Projetar para reuso

O reuso do produto, estratégia de menor impacto ambiental se comparada com a remanufatura e a reciclagem, pode acontecer na mesma função ou em outras funções. Para ser eficaz, é preciso determinar qual o custo econômico e ambiental maior: se o do transporte do produto após seu uso e preparação para a reutilização, ou o do descarte do mesmo. De qualquer forma, para esta estratégia é necessário garantir que o produto seja resistente o suficiente para suportar a coleta, o manuseio, a lavagem (se preciso) e o reuso ou re-enchimento repetidos; utilizar processos de limpeza que assegurem os padrões de saúde e higiene no caso de comidas, bebidas e produtos de cuidado pessoal; evitar rótulos de papel ou plástico, que podem ser removidos acidentalmente.

 

Projetar para remanufatura

Esta estratégia prevê a coleta dos produtos usados, a desmontagem até o nível das peças e/ou componentes, o teste, a manutenção ou substituição das partes danificadas e a remontagem do produto para que este continue desempenhando a mesma ou uma nova função. Para isto, é preciso facilitar a desmontagem e reduzir seus custos, através da minimização do número de componentes; da diminuição dos passos necessários para separá-los; da preferência por prendedores de material compatível com as peças conectadas, ao invés do uso de colas e parafusos de metal; do projeto do produto como uma série de blocos ou módulos, entre outras opções. Além disso, é importante também prever a adaptação do produto a atualizações tecnológicas.

 

Projetar para reciclagem

A estratégia de projetar para reciclagem exige também a desmontagem dos produtos antes que os seus materiais componentes sejam processados, implicando no consumo de energia e de recursos naturais. Estes processos geram custos ambientais geralmente maiores do que os do reuso do produto ou de suas partes, porém menores do que os da produção dos materiais a partir de matérias-primas virgens. A reciclagem é considerada atraente por trazer vários outros benefícios, tais como: preservação de áreas de terra e cursos de água, diminuição da necessidade de espaço para aterros, incremento da renda de famílias carentes e redução da pressão sobre recursos naturais. Entretanto, após o processo de reciclagem (principalmente no caso dos plásticos), a maioria dos materiais perde propriedades de resistência mecânica e de acabamento superficial, passando a ser aproveitados em finalidades menos nobres.
Portanto, é necessário: facilitar a desmontagem; desenvolver materiais capazes de passar várias vezes pela reciclagem sem perder suas propriedades; identificar diferentes materiais, através da aplicação de símbolos e códigos de identificação, para que seja evitada a mistura de materiais incompatíveis; agregar valor estético aos materiais reciclados.

 

Planejar final da vida útil dos materiais/produtos

Após terem sido consideradas todas as estratégias para ampliação da vida útil do produto, resta ainda considerar como agir no caso do esgotamento das outras possibilidades economicamente viáveis de reaproveitamento. Uma das opções é utilizar materiais biodegradáveis em produtos de vida útil breve, já que o uso de materiais duráveis em produtos de curta duração contribui para aumentar o problema do lixo, devido ao maior tempo para degradar. Vale lembrar que a degradabilidade só é útil se o produto for disposto em uma instalação de compostagem ou processado em um bio-reator. É importante também utilizar materiais que possam ser incinerados para a geração de energia sem que produzam emissões tóxicas durante a queima. Como última opção, o descarte do produto em um aterro sanitário pode ser a melhor saída quando os custos ambientais do reaproveitamento do produto superam os do descarte. Neste caso, também a contribuição do projetista está limitada a especificação de materiais menos tóxicos ou que degradem mais rapidamente em um aterro. Produtos que eventualmente contenham materiais tóxicos devem ser pelo menos rotulados  com instruções para descontaminação e disposição final.

 
Tabela 2: Estratégias de Ecoprojeto


A partir da sistematização deste conjunto de estratégias, é possível chegar a duas conclusões. Primeiro, que existe uma certa sobreposição entre ações estratégicas para melhoria do desempenho ambiental, fato patenteado pelo registro de algumas ações em mais de uma categoria, como é o caso de facilitar a desmontagem, importante tanto para a remanufatura quanto para a reciclagem e de projetar para permitir atualizações tecnológicas (up-grades), importante para a durabilidade e a remanufatura. Esta sobreposição, por um lado, pode ser considerada positiva, na medida em que uma empresa, focando um determinado objetivo, consegue auferir ganhos extra, ambientais e/ou econômicos.

Porém, por outro lado, algumas das estratégias apresentadas podem revelar-se contraditórias sob certas circunstâncias, como por exemplo a utilização de materiais reciclados para projetar produtos resistentes e duráveis. Portanto, a segunda conclusão é que uma empresa, ao decidir adotar o ecoprojeto não poderá empreender todas as ações listadas na Tabela 2. A chave para o sucesso é a seleção das estratégias mais apropriadas e efetivas para reduzir os impactos ambientais de cada produto específico. A seguir, é descrito brevemente um processo para selecionar as estratégias mais adequadas dentre as descritas anteriormente.

 

Processo de eco-reprojeto

Segundo Gertsakis et al. (1997), o processo de eco-reprojeto envolve, de forma bastante condensada, três fases, explicadas a seguir: a seleção e análise geral do produto; a análise do impacto ambiental do produto e o estabelecimento de direções para o projeto; e a realização (prototipagem, teste e ajuste) de um novo projeto para reduzir impactos ambientais.

A Fase 1 engloba a seleção do produto a ser reprojetado, que geralmente é bastante influenciada pelas pressões do mercado, e a análise geral, que elabora um relatório sobre o produto selecionado visando alimentar a próxima fase. Este deve abordar questões relativas a:

Marketing, indicando os atributos do produto, os interesses dos consumidores e o tamanho do mercado, entre outros fatores;

Produtos concorrentes, determinando o de melhor perfil ambiental;

Recursos e potencialidades da empresa, traçando um esboço da mesma e uma lista das pessoas competentes para serem envolvidas no ecoprojeto;

Pressões ou potencial para a mudança do produto, identificando novos nichos de mercado ou novas demandas, ou ainda, novos materiais e tecnologias disponíveis;

Informações sobre o produto, incluindo a descrição detalhada do mesmo, a lista dos materiais usados, os padrões atuais de eliminação do produto no fim da vida, os processos de produção envolvidos na sua fabricação e dos seus componentes, os dados sobre o uso do produto, as emissões geradas, entre outros;

Árvore de processo, identificando todos os estágios chaves no ciclo de vida do produto, desde a extração e processamento do material virgem até a reciclagem e disposição final.

Na segunda fase do processo, realiza-se a análise mais detalhada do perfil ambiental do produto para estabelecer as estratégias de ecoprojeto apropriadas. A ferramenta utilizada aqui é a avaliação do ciclo de vida (ver item 4.3), que pode ser completa – mais detalhada e confiável, porém complexa, demorada e custosa – ou simplificada – desenvolvida para tornar o processo mais rápido, quando uma decisão ágil é necessária. Contudo, mesmo na análise simplificada, o mínimo de informações a serem coletadas engloba: os materiais e recursos usados, suas quantidades, se são renováveis ou não, o tipo (eletricidade, gás, óleo, etc.) e a quantidade de energia consumida na produção, no uso e na eliminação do produto, o tipo de transporte utilizado e as distâncias envolvidas, os resíduos e emissões produzidos, e sua eventual toxicidade e/ou periculosidade. Vale lembrar que esta análise demandará informações dos fornecedores e clientes e de outras organizações.

Ainda na Fase 2, utiliza-se uma oficina (workshop) de eco-reprojeto – com participantes das áreas: técnicas, de produto, produção e materiais; de marketing; de projeto; ambiental; e estratégica – para analisar os impactos ambientais do produto e encontrar respostas criativas para minimização dos mesmos. Para este exercício, as estratégias listadas no item 6 fornecem uma base inicial de ações passíveis de serem adotadas.

Por fim, na Fase 3, a realização do projeto do produto ambientalmente melhorado, a primeira tarefa é categorizar as opções geradas na oficina em uma hierarquia de quatro grupos de estratégias, utilizando uma matriz de priorização. As idéias que caírem na categoria 1 (das que oferecem benefícios ambientais significantes e são técnica e economicamente viáveis) podem geralmente ser executadas no curto prazo. Também as idéias na categoria 2 (das que oferecem benefícios ambientais limitados, mas são técnica e economicamente viáveis) devem ser incorporadas tanto quanto possível. Já as propostas da categoria 3 (oferecem benefícios ambientais significantes mas são questionáveis técnica e economicamente) devem ser analisadas posteriormente para determinar as que merecem ser alvo de pesquisas adicionais. E as da categoria 4 (que oferecem benefícios ambientais limitados e são questionáveis técnica e economicamente) em geral devem ser descartadas. Por último, o processo de revisão e pesquisa deve produzir algumas direções-chaves e decisões que guiem a elaboração do sumário para o detalhamento do projeto, o desenvolvimento e a prototipagem do produto.

Vale ressaltar que após todo este processo, o produto deverá passar pelo crivo do mercado, pois não importa quão atrativo, funcional e ambientalmente correto ele seja, suas novas características precisarão ser expostas aos consumidores e aprovadas pelos mesmos.

 

Integração do Ecoprojeto ao Projeto de Produtos

Conforme já visto, o ecoprojeto deve ser incorporado ao processo normal de projeto de produtos. Sendo assim, é essencial que se determine quais os elementos que influenciam o sucesso ou fracasso desta iniciativa. Johansson (sd), através de uma revisão bibliográfica, identifica vinte fatores sucesso para integração do ecoprojeto ao projeto de produtos (ver Tabela 3). Fatores estes relacionados às seguintes áreas de interesse: a posição da gerência, os relacionamentos com clientes e com fornecedores, o processo de desenvolvimento em si, e a competência e a motivação das pessoas para implementar o ecoprojeto.

Tabela 3: Fatores de Sucesso para Integração do Ecoprojeto ao Projeto de Produtos

Fonte: adaptado e traduzido pela autora de Johansson, sd.

 

Após a identificação dos fatores, Johansson (sd) conclui que a integração do ecoprojeto depende, em uma grande parcela, dos mesmos fatores que afetam o sucesso do desenvolvimento de produtos. Apenas os fatores agrupados nas áreas de competência e motivação foram identificados como sendo específicos para o ecoprojeto. Isto implica que, se uma empresa gerencia bem o projeto de produtos de forma geral, as chances de que o ecoprojeto seja exitosamente incorporado são maiores.

Por fim, é interessante notar que os fatores mais freqüentemente citados na literatura revisada por Johansson (sd) foram o comprometimento e apoio da gerência, a educação e o treinamento do pessoal de desenvolvimento de produto e a presença de um entusiasta ambiental na empresa, ou seja, uma pessoa que inspire a organização a valorizar as questões ambientais.

 

Ecoprojeto na 3M

A 3M, multinacional americana fundada em 1951, atualmente opera em mais de 60 países e é reconhecida ao redor do mundo por sua estratégia arrojada de inovação de produtos. A companhia “cultiva uma cultura” que promove a criatividade e a aceitação pelos empregados dos riscos de experimentar idéias novas. Desta forma, a 3M já lançou milhares de produtos até o presente, sendo cerca de 500 o número de novos produtos introduzidos no mercado a cada ano.

Em 1975, a alta direção da companhia adotou oficialmente uma política de meio ambiente, inicialmente com um foco de prevenção da poluição, com o lançamento do Programa 3P (Polution Prevention Pays), que no seu primeiro ano reduziu em 73.000 toneladas suas emissões gasosas. Posteriormente, em ‘89, foi adotada a Política de Segurança do Empregado, Saúde e Meio Ambiente (Employee Safety, Health and Environment Policy).

Esta política está ligada diretamente aos seus valores corporativos fundamentais – respeito pelo ambiente físico e social, satisfação dos consumidores, retornos atrativos para os investidores e orgulho dos empregados pela empresa – e à visão de contribuir para o movimento da sociedade em direção ao desenvolvimento sustentável. Para alcançar esta visão, a 3M vem perseguindo a eco-eficiência, ou seja, a produção de mais produtos e serviços com menos recursos e menores impactos sobre o ambiente, a saúde e a segurança.

A companhia possui ainda, desde ‘96, um sistema de gerenciamento ambiental baseado na melhoria contínua por meio de três estratégias principais: atingir e exceder continuamente os padrões ambientais da empresa e do governo, tomando como referência os mais exigentes; manter a ênfase na gestão do ciclo de vida (Life Cycle Management - LCM), minimizando impactos desde o projeto até a disposição final; e atingir objetivos ousados para ambiente, saúde e segurança, aproximando-se tanto quanto possível de zero liberações ambientais, lesões e doenças.

A gerência do ciclo de vida vem se transformando desde ‘97 em uma parte formal do processo do desenvolvimento de produto da 3M ao redor do mundo. Times multi-funcionais de desenvolvimento de produtos utilizam uma matriz de gestão do ciclo de vida para identificar sistematicamente as oportunidades e questões ambientais, de saúde e segurança de cada estágio da vida do produto.

Um exemplo de eco-reprojeto são as mudanças implementadas nos adesivos em aerossol da 3M para cumprir os novos regulamentos da Califórnia limitando o uso de compostos orgânicos voláteis (volatile organic compound – VOCs). Dois de seus adesivos mais populares (Super 77 e Hi-Strength 90) foram reformulados para reduzir seu índice VOC significativamente e hoje não contêm nenhum ingrediente prejudicial à camada de ozônio.

No Brasil, como a legislação ambiental ainda é muito permissiva, a fábrica da 3M em São Paulo, seguindo a política corporativa, está cumprindo normas internas que ainda não são previstas na lei, mas que possivelmente o serão no futuro. Como exemplo, pode-se citar o controle sobre o lançamento de solventes na atmosfera durante o processo de fabricação da fita adesiva isolante, a respeito do qual não existe legislação no Brasil, mas a unidade brasileira o exerce por causa da norma corporativa.

Um aspecto importante da gestão ambiental da 3M do Brasil é o programa de educação ambiental para o funcionário, iniciado em 1999, quando se percebeu que a aplicação das normas e os investimentos em equipamentos, entre outros, não eram bem compreendidos pelos empregados em geral. Realizou-se, então, uma feira, denominada Eco Vida, para apresentar a estes a reciclagem de produtos e resíduos que a empresa realizava, e que compreendia 70% de todos os produtos.

Posteriormente, o foco foi mudado da reciclagem para a redução de resíduos, visando diminuir as perdas, um objetivo comum ao programa Seis Sigma, implantado na empresa a partir de 2001. Assim, na segunda feira, a empresa, preocupada em reduzir perdas, pendurou um carro sobre um monte de resíduos da fábrica e demonstrou aos funcionários que o valor dos resíduos gerados anualmente equivalia a 120 carros daquele tipo.

Também a conservação da água e da energia são preocupações da empresa. Hoje, não são feitos lançamentos em corpos d’água e 100% da água utilizada é reciclada, tratada e utilizada na própria empresa, para lavar objetos e aguar jardins.

Em relação a produtos ambientalmente melhorados, entre 2000 e 2001 a fábrica de Sumaré reduziu o uso de TDI (Tolueno Di-Isocianato) e de formol na fabricação de dois produtos, visando também os benefícios em relação à saúde dos empregados. Um outro exemplo é o da cola contato para absorventes da Johnson&Johnson, fornecida pela 3M. Neste caso, por demanda da empresa cliente, foi desenvolvida uma embalagem que, além de consumir menos material, ainda simplifica o processo de aplicação da cola sobre o absorvente.

Quanto ao gerenciamento do ciclo de vida de produtos na 3M do Brasil, este só começou a ser implantado muito recentemente, em 2001, com o estudo de viabilidade de dois projetos, um externo, envolvendo uma parceria com outra empresa, e outro interno. Portanto, ainda não é possível avaliar o desenvolvimento deste aspecto do ecoprojeto na empresa.

A partir do exposto, pode-se concluir que a 3M: adota algumas das estratégias listadas na Tabela 2, tendo centrado esforços nas de redução de impactos dos materiais e prevenção da poluição; faz uso do conceito de Ciclo de Vida do Produto, essencial para se analisar e atuar de forma sistêmica sobre os impactos ambientais gerados por um produto; e em relação aos fatores de sucesso do ecoprojeto (Tabela 3), conta com o tratamento do mesmo em nível estratégico e com o comprometimento da alta direção. Com estes aspectos promissores atuando a favor do ecoprojeto na companhia, é de se esperar que esta iniciativa seja recompensada e, sendo assim, continue sendo ampliada cada vez mais.

 

_____________________________________________________________________                                                 
*Esta matriz de priorização pode ser relacionada com a ferramenta avaliação de opções, descrita no item 4.3.
**Elaborado com base em informações obtidas através de entrevista realizada em 23.04.02 com Paulo Deuber, gerente de engenharia de fábrica da 3M para América Latina e África e através de pesquisa no site da empresa: www.3m.com.

 

Consulte nossos Treinamentos na nossa Lista de Cursos
Entre em contato pelo e-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

 

Baixe o arquivo do tutorial em pdf

Autoras: Fátima Góes e Ivana Goulart
Última atualização em 22/06/2009

Copyright © CEDET – Centro de Desenvolvimento Profissional e Tecnológico
Este conteúdo pode ser utilizado livremente desde que citados as autoras e o site do CEDET (www.cedet.com.br).

 

 

Fornecido por Joomla!. Designed by: Free Joomla Template, web hosting. Valid XHTML and CSS.